quinta-feira, 19 de março de 2009

ANOSVERSADOS



Era um dia místico: 19 de Março. Dia da escola, do carpinteiro, do artesão. Dia de saber se vai ter seca no Sertão, das águas de Março fechando o Verão. Dia de São José, que quase me rendeu um nome composto, proposto por meu avô. José Alan! A intenção era boa, o nome não. Era o dia de todos os anjos, de proteção, que me fizeram somente Alan naquela manhã sob aquele parto.
Um bebê que nasce e não chora... Um silêncio analítico e protestante, da dúvida de saber para onde estão fui cuspido, ou ainda a certeza de já, desde o primeiro segundo, destoar do coro, sabotar as previsões, desafiar a criação, a lei, o protocolo e o colo de quem me acolhera que, por eu não ter dado mão à palmatória, deu-me a primeira palmada na vida.
Hoje, dispenso os cometas, as felicitações rasas, os clichês, a superficialidade, o Natal fora de época, os presentes e as presenças indesejáveis, as promoções dos operadores de telemarketing, os reféns dos parabéns, os confeitos e os confetes. Hoje sou eu comigo mesmo, e sinto, e penso e logo lembro do que nem é tão saudoso, mas é saudável. Existo.
Foi o tapa no rosto do padre, seus óculos fugazes caídos na água benta... Um batismo que poderia ter me rendido quase uma excomunhão, antes mesmo de saber quem era, quem eram, a que Era eu pertencia ou qual era o erro. Nós, quando pequeninos, não damos sossego...
O caminho do mistério aponta pra dentro e nada melhor do que mergulhar em si para enxergar, ir além sem lentes de aumento. O que sou e o que sei, e o que sei por ser quem sou e o que sou por ser quem sabe, quem saberá? Quem sentirá se não a mim, a mente, sentidos, os signos e as certezas de que nada é certo.



Veio a paisagem do alto, dos sonhos. Da realidade dos canos de descarga direto no asfalto e os canos munidos de bala, a vala e a viela. A nobreza de ser pobre: a fala da favela. Vieram as descobertas do corpo, os atropelos na fala, os pelos, a pele, o púbis, as guerras, as brigas, o ferro de passar prendendo a lombriga, o não saber, não entender, o isolar-se, intimidar-se... Os livros, as notas e não ser notado, as marcas, o rosto e os rótulos.
Veio o mundo aos montes. Um sopapo: ser pop, ter papo, tomar sopa de assunto e assentar-me. Daí o rock, daí a bossa, daí a fossa e a poesia. O colégio chique, a casa em choque e o futuro em cheque. O vestibular, ser irregular, passar, não gostar, parar, trabalhar, voltar e continuar. Aprender...
A maré que leva o pai, os sonhos e a paz. A maré que nos alaga e nada alega, e logo lava a morada, o muro e a mera esperança na correnteza, que mira na incerteza, e mora no desapego, que desagrega, que fala grego e requer sabedoria e destreza. E aí o que diferencia, além das marcas, além das nádegas, além do nada que não me aprisiona: o questionamento, a indagação. – Uma vida sem isso não merece ser vivida, disse Platão.
Tem gente que acha que sabe tudo, tem gente que acha que nada sabe. Tem gente que dança e é julgado como louco por quem não sabe escutar a música. Tem gente que dança conforme a música, tem gente que compõe a sua própria... Vai entender... Quero entender! Talvez se o cérebro humano fosse simples seríamos ainda mais tolos e não conseguiríamos decifrá-lo.



Há nisso tudo uma inquietação, um tormento bom, a primeira banda, um primeiro beijo, um trago de inspiração. Por isso escrevo, pois habitamos o mesmo mundo, porque nos separamos só por espaço, não por coração. Escrevo porque a escrita é um silêncio que faz barulho, sereno, veneno ás avessas.
Escrevo e sou parte de um livro. Mas, e se a minha história é escrita por alguém que é ficção? E eu, a sombra de uma sombra? E se todos os diálogos são monólogos e a vida uma peça, um drama, a pequena peça de um jogo de encaixe.
Hoje algumas rugas ensaiam me rasgar o rosto, algumas dores nas esquinas do corpo. Eu ainda não sou nada, mas quem, ainda, é? Há um amor verdadeiro que me rege, há arte pra brincar com os sentidos e só na arte se é totalmente livre. Só com a arte nos aproximamos do indizível e construímos nossas próprias regras, nosso próprio mundo, como um Deus.
Tudo escrito? Escrevo ainda... Como se a pirâmide fosse o envelope, e a múmia, então, a carta. E aí não há lápide, haverá sempre um lápis que fará nascer sementes no meu cimento.
Escrevo pra não morrer.

47 comentários:

Bruna disse...

interessante demais..
gostei dissoo 'Há um amor verdadeiro que me rege, há arte pra brincar com os sentidos e só na arte se é totalmente livre'
mtoo mesmooo
;***
Parabéns mais uma vez ;**

Dedê disse...

ahh que perfeito, profundo!! você filosofou lindamente nesse texto, adorei a parte "Eu ainda não sou nada, mas quem, ainda, é?", realmente, não sabemos quem somos ou pra onde estamos indo, só vamos tentando nos encaixar em algo nesse mundo...

lindo lindo!
mais uma vez viajei nas suas palavras..
beijão amigo

Thais Puga®. disse...

Amei... Texto foi escrito lindamente!

Realmente somos tantas coisas e ao mesmo tempo um nada!...
Que na verdade, somos tudo o que fazemos, não fazemos, ...
SL .. Você disse tudo, mas adorei a parte das recusas dos operadores de telemarketing! ... AHahUHAhUAH ..

Ótimo mesmo!
Bjos. xD

Suellen Nara disse...

Quase tudo que está escrito nesse post já passou pela minha cabeça e vez ou outra ainda me pego nesses devaneios um tanto indefinidos ou definidos demais... Não sei.
E tenho raiva por não conseguir escrever assim como se eu tivesse um cabo para passar meus pensamentos direto pro blog. Não o faço. Apenas seleciono o que importa para o leitor, deixando de lado meus exageros.

Pois bem, até me assustei com o final: "Escrevo pra não morrer", pois hoje meu final foi assim: "Escrevo pra não dizer amém".

Gostei muito dos seus textos e obrigada pela visita.

Grunge ^Â^lado disse...

Como um fato costumeiro, o texto está muito bem redigido. Muito bem conectado. Gosto muito do que escreves, como havia dito-lhe, outrora.

"Escrevo e sou parte de um livro. Mas, e se a minha história é escrita por alguém que é ficção? E eu, a sombra de uma sombra? E se todos os diálogos são monólogos e a vida uma peça, um drama, a pequena peça de um jogo de encaixe."

Em muitos momentos penso nisso...


Abraços, amigo!



Omedetou Gosaimasu!

Valci Pessoa disse...

Muito bomcara, parabéns, dia 19 meu blog também fez um mês de vida **

Manúh =* disse...

ahh kee legal essa texto tá otimo ^^
realmente seu nome ia fikar estranho José Alan...kkkkkk
como disseram acima somos td e nd...
vc é mt filosofico ^^
amei

beejo

Valci Pessoa disse...

Olá amigo, tem selo para você lá no meu blog

http://umdiarioinsano.blogspot.com/2009/03/tres-novos-selos.html


Abraço

Gúh! disse...

O final é épico !

Michel disse...

muito bom, gostei dessa parte
Escrevo e sou parte de um livro. Mas, e se a minha história é escrita por alguém que é ficção?

Tulio disse...

Muito bom titulo e exelente construção literaria.. Parabens e sucesso, me visite http://bistrorivadavia.wordpress.com/

Saymon disse...

"Hoje sou eu comigo mesmo, e sinto, e penso e logo lembro do que nem é tão saudoso, mas é saudável. Existo."

Fooda kra!! Post muito bom!!
Blog muito bom!!

To aprendendo ainda mais dah uma visitinha lah: http://ideiasporletras.blogspot.com

Vlw

Eu amo a E.Y. disse...

Gostei da forma como você explora os antagonismos "Um bebê que nasce e não chora... Um silêncio analítico e protestante (...)", por exemplo.

Show o post.

Um abraço!

João Vitor disse...

sombra por sombra, muito bem escrito, bons argumentos, queria saber uma coisa, porque o azul e o cinza?

http://joaovitors.blogspot.com/
abraços!

Gabriel Messias disse...

Eu ainda não sou nada, mas quem, ainda, é?

indentificação melhor nao teve neste post com a minha pessoa e que texto interessante...
massa o blog...

www.eporaivai.blogger.com.br

Diego? Glommer? disse...

Carajo!

Cara, também sou do dia 19! o.O

Vai ver que é por isso que temos inquietações tão semelhantes...

Me sinto sempre deslocado do mundo, como se ainda tivesse que vir a ser. Que sou um estranho que o compreende (o mundo), mas incapaz de compreender a mim mesmo.

Esse lance aí de ilusão de si mesmo também creio que ser bem verdadeiro. Acho que criamos uma imagem de nós que muitas vezes não condiz com o que verdadeiramente somos. Talvez seja mais cômodo isso...

Abraços, cara.

http://solucomental.blogspot.com

Diego? Glommer? disse...

Puxa... e eu vindo aqui para verificar se meu comentário tinha ido constato que ele foi o número 19.

o.O

Sinistro
.

http://solucomental.blogspot.com

Rogerio disse...

muiot bom...sempre tem dias que marcam a nossa vida..

Renatta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
x3 disse...

me identifiquei com o seu post,a maneira como voce escreve.
vim agradecer pelas palavras.
'não pra decorar mas sim pra reestabelecer sua harmonia interna. '
Obrigada vou continuar seguindo teu blog.

C. disse...

"O caminho do mistério aponta pra dentro e nada melhor do que mergulhar em si para enxergar, ir além sem lentes de aumento"

GENIAL!

www.casadobesouro.blogspot.com

mateusbonez disse...

"Há nisso tudo uma inquietação, um tormento bom, a primeira banda, um primeiro beijo, um trago de inspiração."

Simplesmente lindo e inspirador, adorei. Vs é ótimo. (:

http://tiomah.blogspot.com/

Laís disse...

Olá!
Olhos mais claros??? O.O nao nao!!
rs*

Gostei mto do texto viu?!
Tem un trecho q parece ate eu falando no dia 10!
"Hoje sou eu comigo mesmo, e sinto, e penso e logo lembro do que nem é tão saudoso, mas é saudável. Existo."

Beijo

Valci Pessoa disse...

Aguardando atenciosamente atualizações [...] rs

Caroline disse...

intenso,mas ao mesmo tempo com uma suavidade sem limites, não conhecia esse blog, gostei muito, voltarei mais vezes.

http://messnatural.blogspot.com/

Dani disse...

adorei a frase em ingles:
"why stop dreaming when you wake up?"

=]

http://nadadelicada.blogspot.com/

Inez disse...

Somo tudo, somos nada, somos aquilo que queremos ser.
Parabéns pelo texto.

Thierre Januth disse...

Aew Brother tudo blz...

Ainda bem que não se chamou José alan... nada contra mais fica assim sei lá xD

gostei do texto vc escreve muiioto bem
Ahhh.. quando vc narceu vc num choro... eita nois..

abraços

Boa semana para vc xD

parabens

Ah me visita Tb
http://thierre-januth.blogspot.com/

Gisela Melloso disse...

Tocante demais, lendo o tudo senti que vc mostra sua vida desde que nasceu... Poxa somos tanto e nem vemos né? Podemos tanto e nem tentamos, vc disse tudo isso ai no seu texto, e me tocou...
jamais pare de escrever pq vc consegue passar mais do que possa imaginar... Parabéns

Forte abraço

Vanda disse...

Já comentaram tudo o que eu ia dizer =//


Mas ta valendo... parabens pelo texto!

Elô disse...

Já comentaram tudo o que eu ia dizer =//[2]

Mas eu gostei muito viu... tudo bem escrito e lindo!!!
Parabéns

Alan Salgueiro disse...

"Seria mais fácil fazer como todo mundo faz, o caminho mais curto, produto que rende mais..."

(Gessinger)

Rosemeire Polegato disse...

Legal mesmo, tem pessoas que tem o dom da palavra, expressar sentimentos na escrita. Parabens.

Ingrid disse...

Perfeito, realmente tem pessoas que tem o dom da palavra, eu já acho que não o tenho já que me faltam palavras para comentar pois todos já disseram por mim rs.

Obrigada pelas visitas ao meu blog!

douglasfert disse...

VERSOS CONROVERSOS

Nome criativo
Verso bonito
Palavras sábias
Conceitos inteligentes
expectativas superadas.

O que mais posso dizer para expressar a feliz descoberta que fiz ao entrar neste Blog?
A blogsfera precisa sempre de pessoas como você, com conteúdo e com algo de concreto a dizer.

Parabéns!

Vulca*Girl disse...

"Escrevo para não morrer"
Eu tenho uma filosofia mais ou menos assim "vendo idéias para não vender minha alma"
A todos aqueles que com suas palavras desafiam o senso comum e fogem do lógico! Há tantos de nós espalhados por aí com lindas idéias para propagar! Somos tantos e tão numerosos, tão corajosos mas tão distantes, ainda não parecemos formar uma massa homogênea. Estamos assim, tão isolados, tão perdidos em nossos pensamentos assim como estmaos perdidos nesse mundo!

Um brinde às pessoas de mente aberta!

Paulinho Vips Movie disse...

E ai cara.primeiramente desculpas..por algum erro q eu venho a tido a cometer...ok
Bom gostei do seu blog...as imagens q vc usa são muitos boas....
Abraços...ai..

Avassaladoras Rio disse...

Querido amigo avassalador...
Porque paramos de sonhar quando acordamos?
Paramos?

Leo Pinheiro disse...

O caminho do mistério...

Está dentro de nós!

Talvez por isso aparençam tantos antagonismos na sua obra.

Suas figuras de linguagem me parecem refletir esse sentimento...

Não só seu, mas do inconsciente coletivo. Ou estou enganado?

É isso.

Agora apareça lá no

http://www.ocri-critico.blogspot.com/ independente do joguinho do Orkut! ;)

Conto com suas palavras. Abç

Dona Mel disse...

E escreve com maestria!
O passar dos anos é estranho, mas as rugas podem sinalizam por onde os sorrisos passaram.
Beijoca, querido!

Celamar Maione disse...

Só um candidato a louco para escrever tão belo texto. risos.
Só os loucos produzem com tanta verdade. Talento . Sentimento.
O poeta diz que " cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é "....e eu completo com o seu texto que cada um sabe a angústia que tem guardada no peito. Essa ânsia de busca. De vida. De nascimento.
Obrigada sempre, Alan, pelas suas visitas e seus comentários.
Beijão

Marcela Leitche disse...

nossa, acho que o terceiro paragramo em azul de baixo pra cima,nao tenho certeza, mas fiquei besta! adorei!

Dário Souza disse...

A história de uma vida, versada.Super legal.Me fala uma coisa tu bateu na cara do padre msm foi ??

Dani disse...

eu li aqui mas nao tenho certeza, se ja comentei esse post um outro dia, fiquei com preguiça de procurar, tem muitos.
rsrs
mas ta bem legal.
bjoos

Rafael Gierwi disse...

Já disse na outra postagem, mas voui falar de novo. Seus textos são muito bons msm, vc escreve muito bem. Abraços.

Acesse
www.blogtribuna.com.br/gamemania
www.blogtribuna.com.br/gamemania

Junior disse...

eu ja comentei bastantes posts aqui, e cada dia me impressiono com sua facilidade de escrever um texto de conteudo e maravilhoso, parabens e sucesso sempre

Daniel Barros disse...

sensacional. do início ao fim, sensacional!