sexta-feira, 6 de março de 2009

O Breve-Longo Conto de Radar



Inclinava-se para o efêmero, seu nome era Radar. Era Primeiro de Novembro, véspera do feriado de Finados (ele foi gerado numa rapidinha de Quarta-Feira de Cinzas). Seu pai chamava-se Fher, sua mãe Ida, e por um daqueles modismos, decidiram batizar a menina, anunciada pela ultrassonografia, de 'Fherida', a junção do nome dos dois. Quis o destino que viesse um menino, para a criança não ter de carregar tal peso. Ele nasceu leve e diante da suspresa pelo seu sexo, ficou sem nome durante algumas horas.
Ida queria logo vencer a fila gigantesca do cartório para o registro de crianças. Projetava-se longe dali e pensava apenas na estranheza de ver nascer um filho no dia anterior à celebração da morte. Bateu três vezes na madeira e disse: - Radar!
O escrivão, em final de expediente, não objetou. "- Radar de quê!?" Nem ao menos perguntou. Olhou o relógio, sorriu e disse: - Cinco da tarde. Tarde... Radar... Cinco letras! Assim como a palavra 'cinco'. Vai ser o número da sorte do seu filho, minha senhora.
Nem havia completado cinco anos de idade, e Radar já gostava de adiantar os ponteiros do relógio. Na tevê, assistia ao Speed Racer, Ligeirinho e The Flash. Aprendeu Libras pra gesticular enquanto falava e adorava proferir a expressão: é uma mão na roda. Não era superdotado, apenas terminava as provas antes dos outros na escola. Mais que passar direto, queria passar despercebido. Anotava monossílabos, siglas e tudo que pudesse simplificar o fado, a foda de sua existência. Quando criança já era só. Corria...



Fazia questão de comer em fast-foods, fazia questão de "comer" em prostíbulos. Nem se preocupava com os nomes, nem dos pratos, nem das belas. Pagava à vista. Tinha indigestão. Tinha ejaculação precoce. Nunca foi constante, não lhe agradavam os contratos longos, casamentos, vínculos empregatícios... Elo pra ele só o materno, coisa de sangue. Nunca amou mulher alguma além de sua mãe.
Antevia, desvendava, tinha faro. Foi sondado pela polícia e pelo tráfico para prestar seus serviços. Dispensara... Gabava-se apenas de ter gravado de primeira os mais de duzentos versos de "Faroeste Caboclo". Acabou no Jornalismo, viajou para longe. Não para o Faroeste, mas usou seu faro para o furo de reportagem. Soube e sabia demais, sentiu-se ameaçado e pensou na tecnologia.
Fez curso de leitura dinâmica. Matriculava-se apenas em intensivões, supletivos e cursos de final de semana. Era econômico com as palavras, falava como se escreve hoje na internet numa época em que ainda nem se sabia o que era 'Cyber Português'. No seu caderninho curto, abreviações de coisas que só conheceríamos anos mais tarde: www, LP, CD, PC, MP3, DVD, LG, MTV, TNT, PT... Mas nunca quis divulgar seus inventos. Levaria tempo demais...
Dizem que ele idealizou o projeto do trem-bala, na música, compôs o "Samba de uma nota só", nos negócios era dono da Viação Cometa e até na política, inspirou o Dr. Enéas e tantos outros a inventarem bordões de modo a chamar a atenção, evidenciando apenas seus nomes e números.
Estabeleceu também, que as pessoas se refeririam a tempo, quando na dúvida sobre distância. Exemplo: - O mercado fica a quanto tempo do Centro? Em vez de: - A quantos quilômetros de distância... Recomendava... Porém, nem Física, nem Matemática, tampouco a História foram capazes de registrar uma linha sequer de seus pensamentos. Ele passou rápido demais.
Não tinha paciência, e por não ser paciente nunca tinha ido ao médico. Sabia que naquele ritmo entraria em colapso brevemente. Afinal, seus cabelos brancos vieram aos 20, as rugas aos 25, a arritmia aos 30 e antes mesmo dos 40 anos alguns sinais de Parkison já davam indícios da chegada. Mas dizia estar bem, malhava... Duplicava o peso para diminuir o tempo das séries. Sua vida era uma metrópole. Acelerava...



Seu carro ia de 0 a 100 Km/h em singelos 3 segundos. A máquina era um "Bora" e tinha a seguinte escritura adesivada em seu vidro traseiro: "KD?" Num dia desses de se querer furar o vento, seu possante chocou-se contra um poste de alta tensão. O acidente não durou mais que dez segundos, foi tudo muito rápido, como sempre. Um grande clarão se abriu, como se levando Radar a CTI na velocidade da luz, onde permanaceu na escuridão do estado de coma por 6 duradouros meses.
Ainda em estado vegetativo, Radar projetava seu velório: Não duraria mais que 30 minutos. Um salão alugado, com luzes quase findadas em velas pela metade sobre candelabros prestes a visitar as latas de lixo, em cestos que são trocados de hora em hora... O acidente lhe tirou o movimento das pernas, e a vida, que lhe pregara uma peça, deu-lhe mais 60 anos de peso ou redenção, a critério de seu dono.
Radar passou a fazer o que nunca fizera: ouviu o lado B de antigos discos, atentou para a opinião alheia, para as crônicas, para o som da respiração de quem via dormindo profundamente ou dos seus próprios suspiros enquanto ainda acordado. Sentiu aromas, saboreou gostos, tocou seu rosto que definhava e desconfiava do que seus olhos já chispantes e pouco precisos tentavam enxergar. Leu. Escreveu sua história na forma de um conto, mas nunca contou exatamente nada de sua vida antes da despedida.
E aos 120 anos de idade, no quarto de seu apartamento, acomodada sobre uma cadeira de rodas, tombada com a testa recostada em um notebook obeso e obsoleto de seu dono, findava a vida de Radar. No exato momento em que as pilhas de seu relógio de parede sucumbiam ao silêncio dos ponteiros e a imobilidade dos mesmos impedia o velho Radar de estar, como nos tempos de criança, à frente de seu tempo.

10 comentários:

Bruna disse...

'amei issoo demais.. xD mais pq 120 anos? ahsuahsas
;**

Alan Salgueiro disse...

Vou responder no seu scrapbook para não dar pistas para os próximos comentaristas se eles tiverem a mesma dúvida.

Marcela Leitche disse...

eu tive a mesma duvida!

amei o conto! achei muito bom!

bjobjo

Karla Marrocos disse...

Gente! Primeira coisa, adorei o texto. Muito bom, de verdade.

Segundo que ele me lembrou horrores o nome do meu blog. Sabe, esse Ritmo Infernal? Então! Muito bom!

E acredita que eu tava ouvindo Faroeste Caboclo bem na hora que vc falou da música? Eita hahaha

beijoos

Alan Salgueiro disse...

Vivam as coincidências, Karla! Legal mesmo! E quando ao conto, realmente, o ritmo de Radar era infernal mesmo...

Laís disse...

Hummm ainda nao li o post, mas vendo os comentarios fiquei curiosa...
mas eu ja to saindo da net entao vai fik p amanha rs*

Ahh as foto estao la no meu orkut normalmente eu ponho no flog primeiro mas como to meio sem tempo neh ai ja viu

BeijO*

Laís disse...

Hummm ainda nao li o post, mas vendo os comentarios fiquei curiosa...
mas eu ja to saindo da net entao vai fik p amanha rs*

Ahh as foto estao la no meu orkut normalmente eu ponho no flog primeiro mas como to meio sem tempo neh ai ja viu

BeijO*

Sara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sara disse...

Nossa amei o texto, muito bom.

As fotos também.
E a curiosidade continua.

;*

Avassaladoras Rio disse...

Querido amigo avassalador...Interessante...
Porque um "Radar" seria filho de Pher e Ida?Será que era sem direção ou sem sentido, este Radar?